( da saudade )

“há certos momentos. não é sempre. apenas certos momentos que nem sequer tem um padrão, uma cadência ou um denominador comum.

é uma lua cheia no céu de março. um fim de tarde frio junto ao mar. uma música na rádio que ouço pela primeira vez. às vezes, no silêncio da manhã submersa, no duche morno; às vezes no meio do trânsito enfartado, no lusco fusco de uma sexta feira:

a saudade.

não é de ti, sequer, particularmente.
penso nos teus olhos inquietos, no teu sorriso quente, no teu jeito seguro, nas tuas mãos doces ou na tua voz fugidia. e não é de verdadeiramente nada disso que ela reclama.

é a saudade de nós. saudade do que somos quando estamos juntos. do que são as nossas horas sem tempo. daquilo que passamos a ser quando juntos. dessa vida que não vivemos e que nesses momentos me parece a única que é minha.
a saudade desse todo que é maior que as partes, que somos quando estamos juntos.

e penso que até pode não ser amor. que, se calhar, não gosto desmesuradamente assim de ti. é apenas um encaixe perfeito. uma faísca que ilumina os nossos corações e não quer saber de razões. é onde devemos estar.

posso viver uma vida normal. encontrar um grande amor, algumas paixões. passar os dias inteiros, uns atrás dos outros, sozinha comigo ou com outros e outras.

mas, às vezes,
há certos momentos em que a saudade de nós é tanta
(e é tão claro e óbvio que és tu onde eu devo estar, és tu para quem eu fui feita),
que a engano e lhe digo que é a ti que, um dia, irei voltar.”6471bfdf772c575ed8ce9dc5f72d9411

Anúncios

receita de Sonhos…

1457492_654858924558110_1661064501_n

1.

“Coze-se a paciência, em banho-maria, com os tpc, birras e brinquedo para arrumar.  Deixa-se escorrer o sonho nunca realizado num passador, de um século para o outro.

Espreme-se o coração, num pano, até tirar o máximo de desejo e humidade.  Pesa-se bem a força do cansaço.

Põem-se os nervos a ferver com as frustrações, mexe-se e deixa-se cozer no lume lento das lágrimas que nos secam a alma.

Arrefecer… depois. Junta-se um sorriso rendido e amassam-se abraços de ternura.

Repete-se a mesma operação com os restantes descendentes.

Junta-se a dedicação invencível, o amor-fermento e mistura-se tudo com uma conversa fácil até a vida voltar a ficar bem homogénea.

Com uma colher vá retirando a massa de que são feitos e, com a ajuda de outra, frite, um a um, em comodismo, medo e preconceito pondo-os, de seguida, num recipiente hermético fechados para sempre. Polvilhe com açúcar e canela.”

Ana acorda num sobressalto: a receita de que andara  à procurara na véspera, sem sucesso, e a vida de todos os dias a misturarem-se num sonho descompassado. A nesga de céu que a persiana deixava à vista resistia ainda ao azul da manhã com quantas estrelas podia. A seu lado, ele dormia, aquele sono sereno que sempre tinha.

2.

Num dia de paixão tardia do Verão por Setembro decidiu-se: partiu, cumprindo o sonho antigo de provar a geografia morna e a doçura do crioulo cabo-verdianos.

Deixou-lhes uma nota escrita. Uma explicação que poupava preocupações e um prometido volto em breve no verso da receita de Sonhos de Abóbora da Avó Maria.

Ao lado, um prato deles e um recado:

Polvilhem com açúcar e canela.

Ana

amores de Inverno…

IMG_4724   IMG_4725

Guiei no luso-fusco que se abatia sobre a serra. A Peyroux, íntima e grave, no mp3, a embalar-me a descida.

“Dance me to your beauty with a burning violin”

O coração-motor impelia-me a carregar no acelerador para engolir a estrada em velocidades a que o Golf e eu estávamos pouco habituados.

“Dance me through the panic till I’m gathered safely in”

E nisto o receio do confronto a pôr o pé no travão. O desejo irracional de que a estrada não acabasse nunca a tomar conta de mim.

“Touch me with your naked hand or touch me with your love”

A Casa surgiu, inevitável, no alívio da curva apertada que a anunciava. Estacionei, sossegando o motor e os pensamentos.


Era o que tivesse de ser.”

amores de verão… ou de uma vida

 

<

p style=”text-align:center;”>IMG_3482

“E fomos, então, construindo um “nós” que era feito de uma dança doce embalada por olhares, risos, telefonemas parvos, conversas sérias, silêncios confortáveis. 

Sempre juntos, sempre lado a lado, preocupados um com o outro. Mesmo depois das teimosias e das ideologias díspares, que na altura tínhamos, levarem a melhor. 

Não era para ser, não éramos feitos um para o outro – repetia a mim próprio, autista face às saudades que me falavam ao coração. 

Não sabia, naquele tempo, que o amor não tem lógica. 

Ao amor cede-se, de olhos vendados e com a humildade de quem aceita que é assim e pronto: muito difícil para um espirito pragmático como o meu.”

 

conto.te2014